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Onde está a vovó?

Há alguns anos atrás o relacionamento dos colaboradores em relação a empresa era determinado por alguns valores pontuais: o trabalhador tentava manter-se no mesmo emprego por anos a fio e isso era traduzido como um elemento positivo. Muito tempo numa função significava ser um bom funcionário. Eram outros tempos, nem tão longe assim. A devoção ao trabalhado era reconhecida em dinheiro, em promoção, em condecoração. As empresas, por sua vez, tentavam manter os próprios clientes com promoções, descontos, malas diretas, telefonemas, enfim, toda ação que pudesse envolver o outro a decidir a usar os serviços daquela empresa.

Nesse processo de envolvimento temos: a empresa que buscava o seu cliente e os trabalhadores que buscavam trabalhar nas empresas. Um contínuo jogo de sedução onde o tempo era definido como sendo o elemento que caracterizava essas escolhas. Tempo era dinheiro, sim, mas era fundamental estar ali, consumir aquele produto, dedicar-se a ele.
O marketing era caracterizado por propagandas com textos longos, imagens fixas, na maior parte das vezes com desenhos, frases impactantes. O consumidor tinha tempo para ler a propaganda e fazer a sua escolha sem grandes problemas. Por exemplo, em 1962, as Casas Pernambucanas tinham um comercial, em preto e branco, um desenho animado de qualidade duvidosa, no qual um boneco inanimado representava o frio e chegava a casa de uma família apresentando-se como o frio. A dona de casa, respondia que “não adianta bater, que eu não deixo você entrar. As Casas Pernambucanas é que vão aquecer o meu lar.” Logo em seguida, surgia a imagem da família reunida em frente a uma lareira mostrava em seguida uma vovó tricotando, sob uma cadeira de balanço. Duas crianças folheavam revistas, deitadas no chão. A figura do pai não aparecia, subtendia-se que o pai estava trabalhando para manter a família enquanto que as Casas Pernambucanas aquecia os membros da sua família com lãs, cobertores e flanelas, graças ao dinheiro do patriarca. Aqui tínhamos a imagem da família brasileira daqueles anos: crianças que liam material impresso, vovós que faziam tricô e mães que decidiam o que entrava em seus lares. Uma propaganda assim nos dias atuais faria rir qualquer criança. As crianças lêem emails e vêem vídeos no youtube, twitam, vovós fazem dança de salão, correm na praia, namoram e mães que acabam delegando certas decisões a outros membros da família porque precisam dar conta do trabalho, da academia, das implicações da separação, enfim... a vida ficou mais virtual do ponto de vista das soluções. Lãs, cobertores e flanelas podem ser comprados pela internet. A noção do tempo foi modificada. Ao invés de fazer um agasalho de tricô, compramos tudo pronto numa C&A da vida, porque não podemos mais esperar da mesma maneira. Nem o frio chega mais nos meses certos. Nunca mais seremos os mesmos. O passado não tão passado assim tornou-se um horizonte longínquo.
Será que decidimos quem aquece o nosso lar? O que caracteriza o nosso lar? Cadê a vovó com a sua cadeira de balanço? As Casas Pernambucanas ainda existem? E o frio, enviou um email dizendo quando chegará?
Esse trabalho não pretende esgotar esses questionamentos porque ainda estamos vivendo o processo de mudança caracterizado pela tecnologia em nossas vidas. Hoje as nossas escolhas são mais difíceis do ponto de vista da decisão porque existem muitas ofertas. De outro lado, ficou mais fácil comprar, mudar, porque temos muitas “Casas Pernambucanas” que batem à nossa porta metaforicamente, dizendo aqui estou. E nossa capacidade de decisão é influenciada pela mídia que nos envolve com seus apelos. Desejamos o que desejam que tenhamos vontade e nesse jogo a chamada geração Y coloca-se à frente. Assim chamamos aqueles que nasceram nos meados da década de 70. Uma geração que nasceu com um “cobertor mais quentinho” do que a geração anterior, porque não precisaram lutar tanto pelas causas sociais como a geração dos anos da ditadura. São pessoas que não se sujeitam a esperar demais por promoções, reconhecimento, são pessoas que usam a tecnologia com destreza e que põe a satisfação pessoal à frente no momento de optar entre dois caminhos. Esse novo consumidor é exigente e objeto de estudo. As novas propagandas são voltadas para eles, que possuem outra noção do tempo. Tempo? Tudo ao mesmo tempo, melhor assim. São pessoas capazes de usar o computador, falar ao celular e ouvir música concomitantemente. É preciso muito mais do que um jingle e uma imagem para conquistar esse novo público. E o futuro que teremos após essa geração é uma pergunta que não tentaremos responder nesse trabalho. Mas, é um questionamento que fica no ar, entre as linhas das constantes mudanças do nosso tempo. A geração Y é o nosso consumidor e ao mesmo tempo o nosso colaborador. Conhecer de perto esse novo modo de pensar nos ajuda a entender que a gestão pessoal de hoje se baseia em novos parâmetros. E quais seriam esses parâmetros? O que é ser uma empresa moderna? O que define as escolhas dessa nova geração?
Nivea Oliveira

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